Substantivo e preconceito linguístico


Autora: Julia Gamboa

O substantivo


Conceito e definição:

➔ Definição tradicional proposta por Cunha e Cintra (1985):

“Substantivo é a palavra com que designamos ou nomeamos seres em geral.”

Marcos Bagno problematiza o uso da palavra nomear na medida em que sabemos que o substantivo é um nome e, portanto, a definição tradicional seria vazia de explicação, uma vez que afirma que:

Os nomes nomeiam.

➔ Bagno reformula então a definição de substantivo a partir do estudo da referenciação. Assim, define a classe dos substantivos da seguinte forma:

“O substantivo é a palavra que nos permite fazer referência aos objetos do mundo real, do mundo virtual e do mundo mental. E essa referência se faz pela designação: os substantivos são os nomes que damos aos objetos desses mundos para que possamos nos referir a eles.”

Bagno ainda utiliza dois exemplos práticos para entendermos melhor o que é o substantivo:

➔ Para João de Barros, se a substituição de um termo pela palavra coisa for possível, se trata de um substantivo:
coisa bela

➔ Outro exemplo de definição é o que aparece no dicionário Houaiss:

“Qualquer morfema susceptível de ser antecipado por outro da classe dos determinantes, compondo com ele um sintagma nominal.”

Logo, aprendemos que o substantivo é qualquer palavra que possa ser antecedida por um artigo e, ainda, podemos transformar em substantivo uma palavra de outra classe quando colocamos um artigo antes dela.

Concordância Nominal

Fenômeno gramatical que ocorre nas duas classes fundamentais: verbo e nome. Na classe dos nomes, estão incluídos os substantivos, adjetivos, pronomes e os determinantes, que funcionam como adjetivos.

A concordância não é um fato universal das línguas, ou seja, não ocorre em todas as línguas do mundo e, as que apresentam esse traço, exibem graus muito variados de incidência da concordância. Percebemos, então, que a concordância não é indispensável para a manutenção das interações entre os indivíduos por meio da língua.

➔ As principais marcas de concordância nominal incidem sobre o número, o gênero e o caso das palavras.

A categoria gramatical de número

➔ Segundo a Gramática Houaiss, a categoria do número diz respeito fundamentalmente a uma oposição de significados - a oposição entre as quantidades um (singular) e mais de um (plural), - expressa sistematicamente por um mecanismo flexional: ausência versus presença da marca de plural -s.

Exemplos: perna/pernas, flor/flores, coração/corações.

Por outro lado, assim como na expressão do gênero, o artigo, o pronome, o adjetivo que acompanham o substantivo também variam em número por força da regra sintática da concordância.

Exemplos: a perna/as pernas, esta flor/estas flores, um coração/uns corações.

No verbo, o número também expressa a distinção entre singular e plural, mas o faz através das desinências de pessoa, por exigência do processo sintático de concordância verbal.

Exemplo: -o em chego, -s em chegas, ausência de desinência em chega, respectivamente para a 1a, 2a e 3a pessoas do singular.

A flexão de número

Segundo a gramática de Azeredo, a variação de número consiste na oposição entre a forma do singular e a forma do plural, assinalada pelo morfema gramatical indicado na escrita pela letra s ou pelo segmento es ou is.

Exemplos: peixes, anéis, cantores.

➔ Ainda, segundo Bagno, a concordância, tanto nominal, quanto verbal, é redundante. E justamente por isso, ao longo da história, os falantes têm abandonado muitas regras de concordância, sem que a comunicação entre eles seja prejudicada por isso. Isso se deve ao princípio sociocognitivo de economia linguística.

No entanto, como é importante preservar a informação do número, as marcas morfológicas de plural permanecem no elemento que inicia o sintagma nominal, isto é, no determinante.

Proposta de atividade

Em sua gramática pedagógica, Marcos Bagno explica que a frequência de concordância se transformou em um instrumento de discriminação dos falantes que empregam menos marcas de concordância em sua fala. Porém, conforme vimos anteriormente, a diminuição das marcas de concordância decorre de fatores sociocognitivos, ao contrário do pensamento de que é causada por ignorância ou preguiça dos falantes.

Observe abaixo as tirinhas da Turma da Mônica:




Reflita: A partir da definição de substantivo apresentada, identifique na tirinha os substantivos e seus determinantes.

O personagem Nhô Lau faz as marcações de plural no substantivo e em seu determinante?

A falta de marcação de plural nas palavras goiaba e goiabera causa a interrupção da comunicação entre os personagens da tirinha? O sentido e o humor são prejudicados ou mantidos?

A partir das concepções de Bagno sobre preconceito linguístico e concordância nominal e verbal, a abordagem da atividade acima baseia-se na definição e no uso dos substantivos para trazer para sala de aula a discussão sobre discriminação linguística, conscientizando os alunos a partir do resgate de estudos da língua que justificam a redução da frequência de concordância em alguns casos do português brasileiro.

Referências bibliográficas:

BAGNO, Marcos. Gramática Pedagógica do Português Brasileiro. Parábola Editorial. São Paulo - SP. 2012.

AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2014.

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